... Nos dias de hoje, vem surgindo um ser humano mais independente e mais auto-suficiente e isso leva a transformações na maneira de encarar o viver a dois, os vínculos e as relações familiares.... As pessoas estão se habituando, cada vez mais, a estar sozinhas: ouvem música em seus headphones, ficam menos tempo à volta da mesa com os familiares, pois existem os congelados e o microondas para facilitar os diferentes horários da casa, passam horas em seus computadores e é comum cada pessoa da família ter em seu quarto, um vídeo acoplado ao seu aparelho de televisão próprio.... Além do hábito, portanto, aparece a necessidade de se tornar mais independente e, mais que isto, o prazer de estar sozinho diminuindo bastante a disponibilidade em fazer concessões, formar novos vínculos.... Anteriormente, as concessões eram fundamentais nos relacionamentos pois ninguém se imaginava vivendo só. Pagava-se qualquer preço para se ter alguém, sujeitava-se a qualquer tipo de relação. Para as mulheres, principalmente, a idéia de estar sem um homem ao lado, sem um companheiro, para ampará-la, protegê-la, era insuportável, até mesmo sinal de fracasso!... Hoje, a mulher trabalha fora, é independente, bem-sucedida e menos vulnerável a estes sentimentos. Hoje, a mulher é capaz de manter o casamento e, paralelamente, criar seus filhos sem tanta necessidade de um homem para garantir-lhe a sobrevivência emocional e financeira.... Novo estilo... Acrescente-se ainda o número cada vez maior das chamadas famílias uniparentais - com apenas um genitor - fugindo ao antigo padrão de um lar formado por casal e filhos. E não nos esqueçamos, também, das mães solteiras que decidiram ter e criar seus filhos sozinhas. Evidentemente, todas estas transformações e opções abalaram o conceito que possuíamos sobre família e vida a dois.... Paralelamente à noção de poder estar sozinho (e bem!), fala-se, como nunca, na busca do amor romântico construído em torno da idealização e não da realidade. Ele nos vende a crença de que o outro é tudo para nós, proporciona a felicidade absoluta e eterna!... Esqueceram-se de ensinar como é difícil para um casal moderno, onde ambos enfrentam uma dura rotina, conciliar as dificuldades do dia a dia com as expectativas exageradas em relação ao estar apaixonado...É certamente complicado ser romântico, depois de um dia exaustivo de trabalho quando tudo o que se quer é chegar em casa, trocar de roupa e, simplesmente, fazer algo de que se gosta para relaxar...... E, se depois deste dia estressante, ainda temos à nossa espera alguém sequioso para bater um papo e relatar-nos como foi no escritório ou como estão as crianças na escola?! Acreditar que o casamento traz a completude ou a plenitude e que viver a dois é a única fonte de realização e prazer é uma idéia que precisa ser revista para não gerar um acúmulo de expectativas, frustrações e desapontamentos.... Manter um relacionamento... O estar apaixonado não pode ser a condição sine qua non para se manter um casamento. Pensar ainda que o modelo de casal ideal é aquele que passa todo o tempo disponível juntos, que abre mão de suas atividades individuais com amigos e que sacrifica possibilidades pessoais para permanecer a dois é, se não uma visão desastrosa, pelo menos sufocante!... Não há amor que sobreviva sem a possibilidade do crescimento individual, sem espaço para a troca, para a liberdade e para que desejos pessoais possam ser preservados. Quanto maior a capacidade de ficar bem consigo mesmo, menor será a cobrança interior de ter de fazer o que não se gosta e, conseqüentemente, melhor será a qualidade dos momentos onde se escolhe ficar a dois. Há pessoas que passam por terríveis conflitos ao tentar harmonizar as aspirações individuais com o estar a dois: relacionar-se passa então pela via da necessidade e não pela via do prazer.... É como se ainda perpetuassem dentro de si aquela velha tese na qual se nos afastamos, estamos ofendendo o parceiro, deixando-o de lado, desamando... É o amor ligado ao sentido de posse, ciúme. "É melhor que ele fique ao meu lado - mesmo infeliz - do que sair por aí, fora do meu controle..."... Afinal, o medo de ser abandonado ou trocado denuncia um baixo grau de auto-estima. A grande verdade é que só as pessoas pouco maduras e muito dependentes suportam renunciar à sua individualidade para fundirem-se numa simbiose pseudo-romântica talvez pelo temor causado pela sensação de desamparo, própria do estar só. Quem de nós já não ouviu o comentário de que quem não casa está fadado à solidão? Assim é que estamos diante de um fenômeno psicológico tão interessante quanto trabalhoso. O amor romântico pode destronar a vida a dois e levar, como conseqüência à opção do viver sozinho? O amor romântico que se acreditava tudo dá e tudo quer acaba levando a atritos no casamento e revelando-se um modelo inadequado para os nossos dias. Quando percebemos que a dificuldade não está tanto na pessoa a quem nos ligamos mas na forma do vínculo que estabelecemos, temos a chance de reverter o quadro para que o ficar só não seja vivenciado como a melhor opção. O impasse está portanto em fazer com que a vida em comum apresente-se como uma escolha melhor em termos de qualidade emocional.... Somente assim a vida a dois pode sobreviver a todas as tentadoras "vantagens" oferecidas pela condição solitária: dormir e comer na hora que quer, não dar satisfação do que se faz, ter o controle da televisão só para si, ficar no computador quanto tempo quiser, etc.
A vida em sua velocidade exige mudanças. Mas nem sempre as permite tão facilmente...... Enfrentar este enigma, eis o desafio!